
Islamistas ligados à Al-Qaeda proíbem o trabalho de músicos do Mali, entre eles alguns dos maiores artistas da atualidade
A paisagem em transformação, da terra rosada do Sahel para o dourado das areias do Saara, sugeria que o deserto estava perto. A placa mostrava a distância: 33 quilômetros até Essakane, base do Festival do Deserto, evento musical organizado por tuaregues no norte do Mali desde 2001. O ano era 2007. A guerra civil entre tuaregues e o governo central fora formalmente encerrada em 1996, com a queima de mais de 3 mil armas na mítica cidade de Timbuktu. O clima era de paz, e a música celebrava o presente e o futuro do país. O Festival do Deserto de 2007 emocionou as centenas de estrangeiros que, como eu, viveram a experiência única de três dias de shows ao vivo sobre um palco montado nas areias do Saara. Cinco anos depois, a triste notícia: as armas voltaram a calar os acordes africanos. Dessa vez, carregadas por fundamentalistas islâmicos ligados à Al-Qaeda no Magreb, que tomaram o controle de mais uma rebelião tuaregue por independência. Após aplicar elementos da lei islâmica no norte do Mali, entre eles a punição física de criminosos em público, os fanáticos da Al-Qaeda acabam de fazer o impensável: proibiram a música.
Os organizadores do maior evento musical do Mali sabem que não poderão
produzir uma nova festa musical nas areias de Essakane enquanto a
Al-Qaeda controlar a região. Sabem também que sua música pode ser a
maior arma contra os fundamentalistas e decidiram não se render. Nos
meses de fevereiro e março de 2013, o Festival do Deserto, que já atraiu
astros ocidentais como Robert Plant (Led Zeppelin) e Damon Albern
(Blur), do Blur, será realizado fora da região e em outros países, numa
caravana típica da tradição nômade dos tuaregues. Será a vez do Festival
do Deserto no Exílio. Shows serão realizados em outras cidades do Mali,
como Segou e a capital, Bamako, ainda controladas pelo governo central.
Três dias de espetáculos no vizinho Burkina Faso e turnês na Europa,
nos Estados Unidos e na Ásia levarão ao exterior o apelo dos músicos do
Mali: que sua música não seja calada pelo extremismo religioso.

A perspectiva de um Mali sem música assusta seus mais célebres embaixadores culturais. Toumani Diabaté, que gravou o disco “A Curva da Cintura” com Arnaldo Antunes e Edgard Scandurra, teme pelo futuro do Mali. Diabaté disse ao jornal britânico The Guardian que a música é “a riqueza mineral” do seu país. “Música é o nosso combustível.” A banda Tinariwen, que se apresentou com suas túnicas e guitarras no Brasil em 2011, sempre fez questão de manter a sua própria região como base. Mais precisamente, a cidade de Kidal, no meio do deserto. Nas últimas semanas, Kidal tem sido palco do avanço dos fundamentalistas sobre a música, com apreensão e queima de instrumentos. Artistas locais receberam a ameaça: se voltaram a tocar, seus dedos serão cortados.

Enquanto organizam apresentações fora do Mali, os artistas tentam garantir sua segurança pessoal. Em Niafunké, tomada pelos radicais, nenhum músico sente-se seguro. Nascido na cidade, Vieux Farka Touré, estrela em muitos festivais de música pelo mundo afora, em que carrega a chama criativa do seu pai Ali Farka, foi obrigado a deixar a cidade e se abrigar em Bamako. A própria capital, cuja cena musical é uma das mais ricas da África, foi abalada. Depois do golpe militar do início do ano, realizado com a justificativa de reforçar as Forças Armadas para enfrentar a rebelião no norte, o clima é tenso. Bares que antes reuniam moradores e músicos para longas noites de shows informais, estão fechados. As esperanças dos músicos malineses está depositada na comunidade internacional. O Conselho de Segurança das Nações Unidias avalia a possibilidade de formar uma força internacional para colocar um fim ao conflito interno e impedir que o Mali torne-se uma nova base do radicalismo islâmico, como o Afeganistão ou a Somália. Em jogo, está o futuro de uma admirável nação, sempre disposta a compartilhar com o mundo o seu maior patrimônio
Fonte: G1 Via: www.PortalValeGospel.com

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