Governos são derrubados por crise econômica (Europa, num jogo de
dominó) ou são derrubados porque o prazo de validade expirou (Oriente
Médio, como no Egito) ou se aguentam no poder porque expiram a oposição
com força bruta (também no Oriente Médio, como na Sïria). E lá em
Israel, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu mostra que o país está
sólido, em uma recado aos inimigos externos e também aos amigos de
Israel que temem pela coesão interna do país.
Netanyahu, do partido de direita Likud, deu um golpe de mestre na
semana passada, ao aliciar o partido de centro Kadima para a coalizão de
governo. Assim, ele não antecipou as eleições gerais de outubro de 2013
para o próximo setembro como estava praticamente decidido e costurou
uma supermaioria no Parlamento (3/4 das cadeiras). A jogada maquiavélica
de Netanyahu atraiu muita atenção e especulações sobre as ramificações
externas.
Uma leitura é a de que o país se uniu como não se unia desde a guerra
de 1967. Logo, o terreno está sendo preparado para um ataque às
instalações nucleares iranianas. Possível. Há uma leitura também que a
incorporação do Kadima, um partido com uma posição mais aberta e
sensível à questão palestina, pode movimentar as coisas naquela frente
diplomática após tantos anos de paralisia. Menos possível. Basta ver que
Israel e palestinos sequer conseguem retomar negociações substantivas,
como mostrou a mais recente troca de correspondência entre os dois
lados.
As considerações urgentes para o lance de Netanyahu foram mais
domésticas e aqui manifesto um pouco de alívio. Nas considerações
externas, eu persisto nas dúvidas sobre a sabedoria deste ataque ao Irã
(em particular se for uma iniciativa unilateral de Israel) e no caso
palestino não vislumbro avanços significativos tão cedo, o que a longo
prazo é uma dano ao direito palestino a um estado, à legitimidade de
Israel e à busca de um modus-vivendi entre judeus e árabes no Oriente Médio. É um cenário inquietante e que continua se agravando.
Ao menos, porém, existe uma frente mais sólida internamente (a noção
de solidez, é verdade, deve ser encarada com ceticismo em Israel e sua
classe de políticos tão oportunistas, fisiológicos e corruptos). País
mais sólido internamente fica mais preparado para enfrentar desafios
externos. E porque o alívio?
O Likud nunca foi minha praia, mas o
consolo para mim é o fato de ser um partido relativamente secular, como é
o caso do Kadima (que é filhote do próprio Likud). Este casamento de
conveniência entre pai e filho aumenta a margem de manobra para diminuir
o espaço que já é desproporcional de pequenos partidos
ultrarreligiosos, que converteram o país em refém de suas causas (ao
lado de partidos ultranacionalistas de direita, outro dano para a saúde e
o futuro do país).
Com esta nova coalizão, ficou mais fácil a aprovação de reformas nos
próximos meses, a destacar a exigência de algum tipo de serviço nacional
para os jovens religiosos (hoje isentos do serviço militar obrigatório)
e também de reformas do sistema político para reduzir o poder destes
partidecos. Eu considero uma maravilha uma freada na aceleração
religiosa em Israel, um belo exemplo quando vemos o avanço do
fundamentalismo islâmico no Oriente Médio, no lugar de infames ditaduras
seculares.
O poder desproporcional destes pequenos partidos religiosos é uma
distorção que ameaça a própria coesão da sociedade israelense (muitos
destes cidadãos ultrarreligiosos recebem benefícios sociais ou têm
isenções e sequer reconhecem o próprio estado). Curiosamente, reformas
exigindo algum tipo de serviço nacional, ao invés de militar, para
milhares de estudantes de escolas religiosas, tambem terão implicações
para os cidadãos árabe-israelenses do país (cerca de 20% da população),
hoje também isentos do serviço militar. Se estes cidadãos são parte da
sociedade e querem plena igualdade também devem servir ao país, numa
dinâmica de mais direitos e deveres.
Na verdade, estas dinâmicas internas e externas Israel devem ser
enfrentadas simultaneamente, num desafio que garanta pontos essenciais:
um estado judaico, democrático e seguro (e um dia em paz com seus
vizinhos). Será um teste histórico para Netanyahu, alguém que eu
considero mais hábil para estes lances táticos (como costurar esta
surpreendente coalizão) do que uma visão estratégica (no caso palestino,
ele foi arrastado ao longo dos anos para aceitar o mero direito
palestino a um estado).
Para dar uma medida, o compromisso do Kadima com o cenário de dois
estados é mais determinado. Seu líder Shaul Mofaz propôs em 2009 a
criação imediata de um estado palestino em 60% da Cisjordânia e aceita,
ao contrário de Netanyahu, as fronteiras anteriores à guerra de 1967
como base para um acordo de paz, com entrega de algumas terras
israelenses para compensar a perda aos palestinos de blocos de
assentamentos judaicos dentro da Cisjordânia. Mas hoje em dia, Netanyahu
reflete o país. Ele é um político cauteloso. O seu passo é o passo
nacional. Se eleições tivessem sido antecipadas para setembro, o Kadima
teria levado uma rasteira do eleitorado.
Não há dúvida que Netanyahu tem agora inquestionável legitimidade
política para pressionar os EUA contra arrastadas negociações com o Irã
sobre suas ambições nucleares, enquanto ameaça com o ataque preventivo.
Vale lembrar que as divergências dentro de Israel sobre o Irã são muito
mais sobre quando seria o momento mais adequado para o ataque e se isto
deve ser feito sem o apoio ou, pior, contra a vontade americana.
Mas na dinâmica externa, as coisas não estão, é claro, exclusivamente
nas mãos de Netanyahu. No caso iraniano, ele não poderá fazer nada até
que haja um desfecho das negociações nucleares entre a comunidade
internacional e o Irã (a solidez da coalizão de Netanyahu aumenta a
urgência destas conversacões).
O dilema para Netanyahu será um acordo com Teerã que ainda permita
algum tipo de enriquecimento de urânio. Como ele poderá realizar um
ataque num contexto em que existe um acordo indesejável para Israel, mas
aceitável para grande parte da comunidade internacional? O
primeiro-ministro de Israel também precisa medir se lança um ataque
enquanto Barack Obama está no poder ou se arrisca a uma espera eleitoral
(nos EUA), no qual poderá ou não assumir o seu amigão, o republicano
Mitt Romney, em janeiro próximo.
No caso palestino, resta ver qual será a resposta à nova dinâmica
interna em Israel pelas lideranças palestinas (O Fatah do ainda
presidente Mahomud Abbas, que controla a Cisjordânia, e o Hamas, que
manda em Gaza). As apostas de Abbas não funcionaram (como buscar o
reconhecimento unilateral palestino na ONU e não através das tortuosas
negociações com Israel).
Como Obama em Washington, Abbas também apostava (e perdeu) que
Netanyahu seria em algum momento espirrado do poder em Jerusalém. Agora
precisa aceitar a realidade de um adversário mais forte e decidir se irá
se engajar. Quanto ao Hamas, não há muita diferença na sua postura,
além de uma suavização da retórica antiIsrael por alguns setores do
grupo fundamentalista islâmico. O Hamas se sente mais fortalecido com o
avanço da Irmandade Muçulmana no Egito, da qual é filial, e não se dobra
aos esforços de Abbas para colocar Gaza sob o seu controle. Nenhum dos
três atores tem muito a oferecer para se sair do lodaçal diplomático.
Esta união em Israel é um desafio para os inimigos do país, mas ainda
resta saber exatamente o que fará Netanyahu com os frutos de sua
vitória, além de ter menos dor-de-cabeça com a caótica política interna
israelense.
Fonte: Veja Via: www.PortalValeGospel.com


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