Quando o grande pregador Billy Graham esteve no Estádio Maracanã, em
1974, numa cruzada evangelística, começou o seu sermão de uma forma
curiosa. Ele falou mais ou menos assim:“Eu vim da América para
pregar o evangelho. E olhem só que coincidência. Na primeira vez em que
estive aqui, em 1960, o campeão foi o América. E agora, em 1974, o
América, foi campeão de novo”.
Por que o Billy Graham usou essa ilustração na introdução do sermão? Será que ele torcia pelo time do América?
É claro que não. Ele apenas buscou um ponto de
identificação com seus ouvintes. Como norte-americano, não entendia nada
de futebol, mas como estava no Maracanã e sabia que os brasileiros
adoram esse esporte, recorreu a esse “gancho”. Afinal de contas, ele era
da “América” e o América tinha sido campeão carioca de 1960 e vencido a
Taça Guanabara de 1974. O objetivo do Billy Graham, então, não era
ficar comentando o futebol, mas apenas criar um “clima” de aproximação
com as pessoas que estavam ouvindo a sua pregação.
O apóstolo Paulo agiu de forma parecida quando esteve em Atenas,
buscando em seu sermão um ponto de contato com os atenienses, que, na
verdade, não conheciam nada do evangelho.
O evangelho em Atenas – At 17.16-34
É necessário enfatizar que antes de dirigir-se a Corinto (capital da
província romana da Acaia e importante centro comercial), Paulo passou
por Atenas, onde esteve pregando no Areópago.
Esta análise, então, que investiga o breve período de Paulo em Atenas, mostra a estratégia de Paulo para pregar aos gentios.
De fato, em Atenas, Paulo agiu da mesma maneira que em Listra (Atos
14:14-18), quando não citou explicitamente o Velho Testamento por causa
das características de seu auditório, não inteirado dos costumes
judaicos. No entanto, a leitura do texto de Atos 17:22-34 mostra que
apesar de não citar nominalmente o Velho Testamento, Paulo procura
ensinar aos gentios todo o plano da salvação. Observe o esboço do sermão
de Paulo acompanhando os textos na sua Bíblia:
a) Paulo referiu-se à doutrina de Deus:
No sermão, mostrou que Deus é o criador — “Deus fez o mundo e tudo o
que nele há, sendo ele Senhor do céu e da terra” — e não depende dos
homens — “e não habita em templos feitos por mãos de homens; nem
tampouco é servido por mãos humanas, como se necessitasse de alguma
coisa; pois ele mesmo é quem dá a todos a vida, a respiração e todas as
coisas” (versos 24 e 25).
b) Paulo referiu-se à doutrina do homem:
No sermão, enfatizou que todas as raças são iguais — “e de um só fez
todas as raças dos homens, para habitarem sobre toda a face da terra” — e
devem buscar a Deus — “para que buscassem a Deus, se porventura,
tateando, o pudessem achar, o qual, todavia, não está longe de cada um
de nós” (versos 26 e 27).
c) Paulo referiu-se à doutrina da salvação:
No sermão, Paulo mostrou também que todos os homens devem se
arrepender — “Deus, não levando em conta os tempos da ignorância, manda
agora que todos os homens em todo lugar se arrependam” — afirmando que
Deus julgará a todos — “porquanto determinou um dia em que com justiça
há de julgar o mundo” (versos 30 e 31).
d) Paulo referiu-se à ressurreição de Jesus:
A questão da ressurreição era o último ponto do sermão. Paulo,
inclusive, ao falar de Jesus, citou-o de maneira genérica – “varão” –
pois os atenienses não tinham conhecimento dos episódios que ocorreram
em Jerusalém. Assim afirmou: “Deus há de julgar o mundo, por meio do
varão que para isso ordenou; e disso tem dado certeza a todos,
ressuscitando-o dentre os mortos” (verso 31). Infelizmente, no entanto,
nesse instante a pregação de Paulo foi interrompida. Para os gentios, a
idéia da ressurreição era inaceitável — “quando ouviram falar em
ressurreição de mortos, uns escarneciam, e outros diziam: Acerca disso
te ouviremos ainda outra vez”.
A estratégia de Paulo
Bem, até aqui creio que está bem clara a estrutura da pregação de
Paulo, ou seja, os pontos do seu sermão. Uma das questões mais
interessantes do estudo desse texto bíblico, todavia, é a estratégia que
Paulo usou para estabelecer uma ponte com os seus ouvintes.
A cidade de Atenas era famosa por seus templos e monumentos, sendo
por muitos, considerada como a capital da cultura grega. E, nesse
contexto, o Areópago era uma das instituições mais importantes da
cidade, pois funcionava como um Conselho de Líderes, local de
importantes debates.
Se observarmos bem, veremos que Paulo começa seu sermão com uma
referência à religiosidade dos atenienses — “varões atenienses, em tudo
vejo que sois excepcionalmente religiosos” — e destaca o Altar ao Deus
Desconhecido como um ponto de partida — “Esse, pois, que vós honrais sem
o conhecer, é o que vos anuncio”.
Ao contrário do que muitos fazem hoje, quando pregam e desrespeitam a
crença dos outros — “o Padre Cícero é do diabo” (e por aí vai) — Paulo
usa uma estratégia muito mais sábia.
Assim como o Billy Graham, que adaptou o sermão à cultura dos
ouvintes, Paulo também relacionou sua pregação aos costumes culturais de
Atenas. Convém perceber, entretanto, uma certa adaptação feita por
Paulo. Isso porque historiadores gregos – Pausânias e Filóstrato – fazem
referência à existência de altares a deuses desconhecidos em Atenas.
Tais referências são muitas vezes associadas à história de Diógenes
Laertius acerca de altares anônimos erguidos por Epimenides (um sábio de
Creta, inclusive citado por Paulo em Tito 1:12) em Atenas e arredores
para afastar uma peste. Paulo então faz uma adaptação, pois ao invés de
falar de deuses desconhecidos, prefere usar o singular: “Deus
Desconhecido”, inclusive porque não queria abrir uma “brecha” para a
idolatria.
Além disso, no Areópago, ao contrário de seus sermões em alguns
lugares, Paulo cita autores conhecidos de seu auditório pagão. O, já
referido, filósofo Epimenides, de Creta, tinha dito acerca do deus grego
Zeus: “Os cretenses, sempre mentirosos, bestas más, ventres
preguiçosos, forjaram uma tumba para ti, oh santo e elevado. Mas tu não
estás morto. Tu vives e permanece para sempre. Porque em ti vivemos, nos
movemos e temos nosso ser”. E também cita Arato, que em um poema sobre
os “Fenômenos Naturais”, afirmara: “Comecemos com Zeus. Nunca deixemos
de mencioná-lo, oh mortais! Todos os caminhos e todos os locais onde os
homens se reúnem estão plenos de Zeus. Em todos os nossos assuntos temos
que ver Zeus, porque somos também sua geração.”
Paulo, efetivamente, adapta Epimenides e Arato e afirma no Areópago
de Atenas: “(…) para que buscassem a Deus, se porventura, tateando, o
pudessem achar, o qual, todavia, não está longe de cada um de nós;
porque nele vivemos, e nos movemos, e existimos; como também alguns dos
vossos poetas disseram: Pois dele também somos geração.”
A comparação desses textos, entretanto, levanta uma questão: Estaria
Paulo igualando o deus grego Zeus ao Deus da Bíblia? Para responder a
pergunta, basta avaliar o que Paulo afirma antes e depois de citar os
poetas gregos. A intenção do apóstolo foi a de fazer um “gancho”
evangelístico. Ele fala de pessoas que estavam “tateando” (Atos 17:27),
quer dizer, iam apalpando, como cegos, querendo achar o caminho. E aí
afirma: “Chegaram bem perto, pois somos geração (não de Zeus), mas de
Deus”. O que Paulo faz é pegar o que os autores gregos falaram em
relação a Zeus e aplicar ao Deus da Bíblia.
Para pensar e agir
Em Atenas, Paulo fala do Cristo ressurreto usando como pontos de
contato aspectos da cidade e afirmativas de autores gregos. Esse “gancho
cultural”, que até Billy Graham usou no Maracanã, poucas vezes é usado
por nossas igrejas. Na verdade, ignoramos a cultura do povo a quem
pregamos, desconhecemos os filósofos e pensadores influentes, e
desconsideramos a necessidade de adaptar a mensagem da salvação à
realidade ao nosso redor. E o pior é que nem percebemos que Paulo agiu
totalmente diferente. Sua pregação teve resultados concretos: “Alguns
homens aderiram a ele, e creram, entre os quais Dionísio, o areopagita, e
uma mulher por nome Dâmaris, e com eles outros” (verso 34). Que métodos
vamos seguir, os nossos, ou os de Paulo?
Fonte: Evangelho Hoje Via: PortalValeGospel.com


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